Greenpeace – O carbono do petróleo também é nosso


SÉRGIO LEITÃO*

Existe uma reviravolta no balanço de poder mundial com a emergência do poderio econômico de países como Brasil e China. Esse quadro que se insinua há mais de uma década, ganha contornos mais nítidos com a crise econômica que assola a Europa e os Estados Unidos desde 2008, levando o banco Goldman Sachs a revisar suas projeções sobre o Produto Interno Bruto (PIB) no mundo, feitas em 2003. O resultado indica que a China alcançará os EUA em 2027, enquanto o PIB do Brasil alcançará o da Alemanha em 2029. Em 2034, superará o do Japão.

Para transformar em realidade essas profecias econômicas, o Brasil, como todas as nações que já alcançaram altos índices de desenvolvimento, precisará de mais energia. O incremento na produção de petróleo, com a exploração do pré-sal, é colocada como uma solução. Mas, ao lado das questões que já integravam o cenário tradicional de análise sobre o tema – como a guerra constante pelo controle dos estoques de petróleo e gás –, o problema do aquecimento global e das mudanças climáticas já lançaram a maldição definitiva sobre o uso dos combustíveis fósseis na matriz energética. Esses combustíveis emitem elevados índices de gases de efeito estufa.

Saiba mais
• Puxado pela exploração das reservas do pré-sal, em 2020, o Brasil produzirá 6,09 milhões de barris de petróleo por dia, o que representa 955,82 milhões de toneladas de CO2 nas contas das emissões mundiais dos gases de efeito estufa;

• Pelas regras da ONU, a contabilidade das emissões do setor de petróleo é feita no local onde ele é consumido. Em 2020, somente a demanda interna do Brasil será responsável por consumir 48% da produção de petróleo nacional, fazendo com que 488,69 milhões de toneladas de CO2 entrem exclusivamente nas contas brasileiras de emissões de gases de efeito estufa;

• As reservas do pré-sal estão estimadas em até 80 bilhões de barris de petróleo. Se todo este óleo um dia virar fumaça, será responsável pela emissão de até 35 bilhões de toneladas de CO2 durante um prazo de 40 anos;

• Entre setembro de 2010 e agosto de 2011, os mais de 9 mil poços atualmente em operação no país, em terra ou no mar, emitiram um total de 321,474 milhões de toneladas de CO2, aqui ou nos países para onde foi exportado, o que equivale, em termos de emissões de gases de efeito estufa, a 5,7 bilhões de viagens de avião entre Rio e São Paulo;

• A produção de petróleo e gás extraída do xisto e das areias betuminosas nos Estados Unidos e Canadá já é uma forte concorrente do pré-sal e pode diminuir drasticamente a viabilidade econômica da exploração de petróleo em águas profundas;

• Mesmo depois dos vazamentos recentes, Brasil ainda não conta com um Plano Nacional de Contingência para lidar com acidentes na indústria de petróleo e gás.

• Nos Estados Unidos, o fundo “Oil Spill Liability Trust Fund” pode dispor de até 1 bilhão de dólares para a limpeza de vazamentos de óleo e reparação dos danos causados a terceiros.

Cabe perguntar se estamos preparados para enfrentar esses desafios e evitar que mais uma vez escolhamos os caminhos tortuosos que nos fazem chegar sempre atrasados ao futuro que outros países já alcançaram. Enquanto nos Estados Unidos e na Europa se debate intensamente a redução da dependência do petróleo, investiremos, até 2020, R$ 686 bilhões na indústria de petróleo e gás (70% de todo o investimento do setor energético). Boa parte destes recursos pretende viabilizar a exploração da camada do pré-sal, considerado um dos maiores desafios tecnológicos do mundo. E não é possível prever se essa extração em águas tão profundas será feita a preços competitivos.

Em meio a uma crise climática sem precedentes, capaz de ameaçar o futuro do planeta, o Brasil despejará 197% a mais de CO2 na atmosfera até 2020, somente por conta de sua exploração petrolífera se mantiver esse cenário de investimentos. Este acréscimo deixará o Brasil entre os três maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, atrás apenas da China e dos Estados Unidos (mesmo que zeremos o desmatamento, hoje a nossa maior contribuição).

Além da questão climática, a indústria do petróleo traz outras ameaças ao meio ambiente. Como 91% da produção brasileira de óleo e gás é extraída no mar, a biodiversidade marinha e as atividades a ela relacionada estão vulneráveis. Qualquer vazamento pode ser indescritivelmente difícil de controlar e ter impactos irreversíveis. Os poços do pré-sal são mais profundos do que os do Golfo do México (EUA), onde em 2010 ocorreu o maior vazamento da história. E, no Brasil, o acidente em um poço operado pela Chevron, na Bacia de Campos, no ano passado, foi um alerta vigoroso de que o país não está pronto para lidar com a exploração do pré-sal.

*SÉRGIO LEITÃO – Advogado, é diretor de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil